Zé Alves: o poeta sonhador do Sertão da Paraíba

Era um dia, como outro qualquer, muito movimentado na rodoviária de João Pessoa, capital da Paraíba. Um ônibus acabara de estacionar na plataforma, dele desce um homem, vestindo camisa polo preta, usando óculos de descanso, com sorriso farto, empunhando uma viola, seu principal instrumento de trabalho.

De repente ele coloca a viola no ombro e segue para o desembarque. A cena mais parece os lavradores no Sertão nordestino, carregando suas enxadas no caminho para o roçado do que os poetas/repentistas, conduzindo suas estimadas violas para uma cantoria de pé de parede ao cair da tarde.

Seus traços e seus movimentos denunciam sua identidade à luz da nordestinidade, semelhante a tantos outros personagens que chegam e deixam a cidade de João Pessoa pelo terminal rodoviário. O cidadão em tela se chama José Alves de Carvalho, conhecido como o poeta Zé Alves, 57 anos, cantador de viola da cidade de Imaculada, distante 358 km de João Pessoa.

DOM, TÉCNICA, PERFORMANCE?

No passado, ainda jovem, quando era apenas observador do universo da cantoria secular, ele acompanhava a agenda dos cantadores Moacir Laurentino e Sebastião da Silva. Atento ao comportamento dos renomados repentistas da época Zé Alves formou o seu caráter, observou as técnicas da produção poética e os macetes da viola improvisada.

Deus concede os dons e talentos ao homem e depois capacita para o exercício profissional usando os mais variados meios e métodos de ensino/aprendizagem

       Foi de olho no dedilhar e acordes desses monstros da cultura popular que as portas foram se abrindo e chegando as primeiras oportunidades de cantar ao lado deles e de outros artistas populares que lhes estenderam a mão. Seu primeiro parceiro e mentor foi Rogério Meneses, outro expoente da arte da cantoria. “Deus concede os dons e talentos ao homem e depois capacita para o exercício profissional usando os mais variados meios e métodos de ensino/aprendizagem”, explica o poeta Zé Alves ao demonstrar sua gratidão a Deus e aos colegas repentistas.

Dos versos tóxicos e empoeirados às canções limpas e abençoadas

Anos mais tarde, ninguém podia imaginar que aquele senhor grisalho que acabara de desembarcar em João Pessoa fosse um sobrevivente da autêntica cantoria pé de parede e que hoje, por amor ao evangelho, dedica seus dons e seus talentos ao serviço do Reino de Deus.

Convertido ao evangelho, em 1994, o poeta Zé Alves abandonou o conteúdo tóxico e empoeirado da cantoria secular por canções limpas e abençoadoras. Este distintivo marca a trajetória do velho para o novo repentista Zé Alves circunscrito na sua conversão ao evangelho.

Desde que aceitei Jesus, eu renunciei a cantoria que faz apologia à pornografia e que promove o sexo fora dos padrões bíblicos”, enfatiza o cantador ao destacar que hoje, ele prioriza uma agenda gospel ao lado de poetas evangélicos consagrados no processo de evangelização do povo sertanejo, com destaque para Francisco Emídio, João Luiz – ambos de origem pentecostal – dentre outros poetas populares membros das igrejas tradicionais (Batista, Presbiteriana, Congregacional e Assembleia de Deus) as quais capitaneiam essa trincheira de evangelização no Sertão do Nordeste do Brasil.

A dupla José Alves (D) e Chico Emídio (E) cantam para glória de Deus

O poeta e repentista Zé Alves fala do presente com muito entusiasmo, apesar do reconhecimento tímido alcançado pelos cantadores no âmbito das diversas denominações evangélicas.

“Eu louvo a Deus pela igreja local e pelas oportunidades de cantar com os meus irmãos repentistas em cruzadas evangelísticas e cultos especiais nos sítios e povoados da região”, disse alegremente ao desembarcar em João Pessoa para atender convite da Sociedade Masculina da Igreja Batista Regular no bairro dos Bancários em uma de suas últimas apresentações em João Pessoa.

Quando os pastores agendam os eventos e envolvem a igreja na leitura da palavra e na oração… …Deus abençoa sobremaneira cada momento da cantoria.

Ao ser abordado sobre a realização de uma cantoria evangélica exitosa ele ressaltou que o mais importante do evento está na saúde física e espiritual dos personagens envolvidos: repentistas, pastores e a igreja. “Quando os pastores agendam os eventos e envolvem a igreja na leitura da palavra e na oração”, revela o cantador “Deus abençoa sobremaneira cada momento da cantoria”.

A viola, o som e a compaixão

A ferramenta de trabalho, que é o instrumento musical, é a mesma, ou seja, a viola. Mas, diferentemente dos poetas populares seculares, os sons que dela emanam, ao dedilhar das cordas, embalam outras mensagens. São assim que atuam os repentistas que, alcançados pela graça do Senhor, vêm utilizando a arte da cantoria para evangelizar almas pelo Nordeste do Brasil. Com o poeta Zé Alves não é diferente.

Movidos pela compaixão por aqueles que ainda não aceitaram a Jesus Cristo como seu único e suficiente salvador, o poeta Zé Alves assegura que entoa versos baseados em assuntos da Bíblia Sagrada, a exemplo do amor de Deus e, principalmente, a necessidade do arrependimento para o novo nascimento e, assim, se pode ganhar gratuitamente a vida eterna no Céu que Cristo oferece e dá graciosamente.

Por fim, ele lembra que “a sua produção cultural e bíblica pode ser encontrada nas diversas modalidades da cantoria com destaque para a sextilha, o decassílabo, o mote em sete, o que me falta fazer mais, canções, galope na beira do mar”. Convites para apresentação em igrejas e eventos públicos são bem-vindos pelo WhatsApp do poeta Zé Alves: 083 99640-1138.

Jornalista, autor, narrador e agora blogueiro.

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